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No Acre, 90% da população não tem coleta de esgoto e menos da metade tem acesso à água potável

Estudo do Instituto Trata Brasil aponta que estado poderia economizar R$ 156 milhões no SUS com universalização do saneamento básico. Segundo dados do instituto, na capital acreana, 78,3% dos moradores não têm coleta de esgoto.

27/04/2021 14h49
Por: Redação Acrelândia News Fonte: G1-AC
No Acre, 90% da população não tem coleta de esgoto e menos da metade tem acesso à água potável

Apesar das recomendações de higiene feitas pelos órgãos de saúde desde o início da pandemia, um relatório divulgado nesta terça-feira (27) pelo Instituto Trata Brasil aponta que mais de mais de 458 mil acreanos não têm acesso à água potável e mais de 790 mil à coleta de esgoto.

Isso significa que 90% da população do Acre não tem coleta de esgoto e que menos da metade possui acesso à água tratada. No caso da capital acreana, dos 407.319 moradores, somente 88,1 mil têm coleta dos esgotos e pouco mais de 221 mil à água potável. Ou seja, 78,3% dos moradores de Rio Branco não têm acesso ao básico.

Em março, o Instituto Trata Brasil já havia apontado que a capital acreana estava entre as dez piores cidades com relação ao serviço de água e esgoto.

Entre 2005 e 2019, a população com acesso à rede de água no Acre registrou leve aumento de 33,2% para 48%. No caso do esgotamento sanitário, os avanços foram praticamente insignificantes, saindo de 8,8% da população com coleta dos esgotos em 2005 para 10% em 2019.

Além do baixo acesso aos serviços de saneamento básico, o Acre é um dos estados que mais perde água potável nos sistemas de distribuição devido aos vazamentos, furtos e erros de leitura dos hidrômetros. Conforme o Instituto, o estado tem indicador apontando 60% de perdas, muito acima da média do Brasil, que é de 39%.

O estudo também levantou de forma inédita o perfil da população sem acesso aos serviços básicos de saneamento no estado. Os dados indicam que, em 2019, a privação de saneamento estava fortemente concentrada na população jovem, autodeclarada parda e mais pobre do estado.

Benefícios com universalização

Como parte das análises regionais, o estudo analisou os ganhos que a universalização do saneamento pode trazer ao Acre e suas maiores cidades. No período de 2005 a 2019, os investimentos em saneamento no estado alcançaram o valor médio anual de R$ 34 milhões.

Mesmo os avanços em saneamento básico no Acre tendo sido pequenos entre 2005 e 2019, o estudo mostrou que eles geraram benefícios econômicos de cerca de R$ 1,2 bilhão ao estado.

Desse valor, R$ 636 milhões foram de benefícios diretos (renda gerada pelo investimento e pelas atividades de saneamento e impostos sobre consumo e produção recolhidos) e R$ 655 milhões devido à redução de perdas. Com isso, os benefícios excederam os custos em R$ 784 milhões, indicando balanço social positivo para as 22 cidades acreanas.

O instituto prevê ainda os benefícios financeiros que o estado deve ter nos próximos anos se cumprir com as metas do novo Marco Legal do Saneamento, em que os estados e municípios têm obrigação de fornecer água potável para 99% da população e coleta e tratamento dos esgotos para 90% até 2033.

Conforme os dados, entre 2021 e 2040, os ganhos com a universalização dos serviços de água e esgotos poderiam chegar a R$ 3,5 bilhões e a R$ 5,5 bilhões até 2055. Esses ganhos vão desde a geração de empregos devido aos investimentos, assim como também com a redução de doenças, melhoria na educação, valorização imobiliária e ganhos ambientais.

Somente com a área da saúde pública, a previsão é de uma economia de R$ 156 milhões, entre 2021 e 2055, graças ao avanço do saneamento. Uma vez que, segundo o instituto, teria redução nas despesas com internações por infecções gastrointestinais e respiratórias na rede hospitalar do SUS.

Primeiro estado estudado

Ao G1, o pesquisador do instituto, Fernando Garcia chamou atenção para o momento que o Acre passa e para os benefícios sociais que podem ser gerados com os devidos investimentos na universalização do saneamento. Segundo ele, o estado foi escolhido este ano para ser o primeiro a passar pelos estudos do instituto por ser um dos que apresenta maiores problemas relacionados aos serviços de saneamento.

“O Acre tem uma taxa de cobertura dos serviços muito baixa em relação à média nacional, que não é boa se comparada à média de outros países. Então, o estudo visa justamente saber esse balanço, quanto custa para universalizar o saneamento e o que se ganha com esses investimentos. Nossa metodologia avalia o passado, para medir o esforço que foi feito e, de fato, houve um progresso, principalmente na questão de água no estado, mas ainda há mais da metade da população que está sem acesso a água, inclusive na capital. Depois, analisamos os benefícios, que vêm de várias formas”, explicou.

Conforme o pesquisador, por conta da situação atual, o Acre está entre os estados que mais ganhariam no país com acesso de todos à água potável e esgotamento.

“Se avançar nessas próximas duas décadas, atendendo as metas do novo marco regulatório, o retorno social desse investimento é muito grande. Vai reduzir problemas de saúde do Acre, vai se economizar recursos que são gastos com a Saúde, aumentar a renda dos trabalhadores, gerar oportunidades de emprego, valorizar os imóveis, valorizar o turismo e todas as atividades que estão ligadas ao meio ambiente. Além de baratear a coleta de água para tratamento”, acrescentou.

O que diz o Depasa

Ao G1, o Departamento Estadual de Pavimentação e Saneamento (Depasa) informou que, nos primeiros seis meses de gestão, o governo Gladson Cameli, que assumiu em 2019, realizou novo estudo do sistema de água e esgotamento sanitário no Acre.

O ponto de partida para os trabalhos foi o plano diretor de água e esgoto 2000/2020. O estudo apresenta a avaliação do plano vigente, analisa o crescimento da cidade, verifica o que não foi feito e o que ainda precisa ser feito para garantir serviços de água e esgotamento sanitário no estado.

De acordo com o estudo, o Depasa informou que muitos problemas ainda existentes são decorrentes, principalmente, da não execução de algumas obras definidas no plano diretor elaborado em 2000, como a construção de alguns reservatórios e conclusão do reforço de rede de abastecimento e de coleta de esgoto.

“Após minucioso estudo de viabilidade e devidas adequações necessárias para dar continuidade aos projetos, um total de 39 obras em todo o estado, interrompidas durante a gestão anterior pelos mais variados motivos, foram retomadas. O próximo passo foi mostrar às empresas executoras que a liberação dos recursos para continuidade e conclusão das obras ainda era viável. No segundo semestre de 2019, as obras viáveis foram retomadas”, disse em nota.

Os projetos são de obras de saneamento integrado (por meio de implantações de rede de água e esgoto, pavimentação de vias urbanas, além de construção de meio fio e calçadas) e ampliação/melhorias no sistema de abastecimento de água em todo o estado.

“Com a assunção das obras de saneamento básico para as secretarias de Infraestrutura e Desenvolvimento (Seinfra) e Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Regional (Sedur), 14 dessas obras são realizadas no âmbito da Seinfra. As demais serão concluídas pelo Depasa, autarquia que, conforme decreto governamental 168/35, será responsável pela manutenção dos sistemas de água e esgotamento sanitário.”

Obras em andamento

Por meio de convênios com instituições financiadoras como Funasa, BNDES, Caixa Econômica, o governo informou que executa obras de ampliação e melhorias do sistema de coleta e tratamento de esgotamento sanitário nos bairros Cidade do Povo, Preventório, Bosque, Procon, Solar, em Rio Branco, e no município de Bujari. Os recursos já garantidos para execução no ano de 2021 contemplam obras de esgotamento sanitário também em Tarauacá, no interior do estado.

Ainda com recursos de convênio são realizadas obras de ampliação e melhorias do sistema de abastecimento de água em Xapuri, Jordão, Cruzeiro do Sul e no bairro Cidade do Povo, em Rio Branco. O Valor total de investimentos por meio de convênios é de mais de R$ 101,9 milhões.

Com recursos de operações de crédito, o governo informou ainda que realiza obras de saneamento integrado nos municípios de Plácido de Castro, Santa Rosa do Purus, Porto Walter, Jordão, e na capital Rio Branco, nos bairros Jardim Primavera, Santa Luzia, Ouricuri, Rui Lino, Joafra, Boa Vista, Conquista, Flor de Maio, Floresta Sul, Santo Afonso, Santa Helena, Salim Farhat, Jorge Lavocat. O valor total dos investimentos por operações de crédito é de R$ 211,4 milhões.

“As obras, que serão concluídas entre os anos de 2021 e 2022, representam avanço significativo na qualidade dos serviços de abastecimento de água e esgotamento no estado. Contudo, há ainda necessidade de mais investimentos em implantação de sistemas de esgotamento sanitário no interior e ampliação e melhorias do sistema de abastecimento de água em Rio Branco, onde há ainda necessidade de novos reservatórios e ampliação da rede de distribuição”, concluiu.

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